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quinta-feira, 6 de maio de 2010

TRINDADE - ESTUDO 4


UM PROBLEMA HISTÓRICO

Resumindo o que já estudamos até aqui sem complicar, temos: há três maneiras de encontrar Deus – mas trata-se sempre do mesmo Deus. Enquanto nos restringimos a entender a Trindade como uma categoria da experiência, em termos intelectuais isto não nos coloca diante de problemas intransponíveis: Deus se revelou de três maneiras, e sempre se revelou como Deus único, inteiro, perfeito, indivisível.
Os problemas começam no momento em que abstraímos a Trindade desta dimensão da experiência e a transformamos em uma categoria do raciocínio. Em vez de meditar sobre a relação que nós seres humanos temos com o Deus único (ou que tem Deus conosco), colocamos as “três Pessoas da Divindade” (assim, após pouco tempo, ficou a formulação clássica) racionalmente uma ao lado da outra e nos perguntamos que relação essas três Pessoas têm entre si.
Este foi o ponto de partida de discussões acaloradas, que abalaram a igreja no século IV e que, por fim, produziram a doutrina oficial da Trindade. Procurou-se por fórmulas verbais que abrangessem tanto a “unidade de Deus’ como a distinção das “três Pessoas”. Que conceitos poderiam abranger isso? As desavenças sobre essa questão foram enormes.
Como o imperador romano Constantino precisava da igreja, até a pouco ainda perseguida pelo Estado, como elemento pacificador no âmbito da sua política de poder, ele procurou caminhos que solucionassem esse impasse. Convidou bispos e teólogos, às custas do Estado, para um grande concílio em Nicéia (325dC) e empenhou-se – inclusive com contribuições teológicas próprias – em encontrar fórmulas com as quais os partidos em disputa pudessem identificar-se, e finalmente dar sossego.
Destas discussões surgiu o que até hoje vale como doutrina clássica da Trindade: Deus é entendido como “uma substância” em “três Pessoas”. O que se pode dizer sobre essa fórmula à luz do que até aqui nos ficou claro sobre a Trindade? Pelo menos três coisas:

1. Essa fórmula deveria expressar a mesma coisa que vimos na figura-base que utilizamos. Porém, se usarmos apenas os recursos da língua, e ainda por cima do latim ou do grego, esse empreendimento é muito problemático. Se há algo que as discussões durante séculos sobre a Trindade mostraram, é certamente o fato de que, com recursos apenas verbais, não é possível resolver esta questão.
2. Ficou evidente como é problemático isolar a Trindade do campo da experiência para analisá-la separadamente – quase como um objeto inanimado sob o microscópio. Assim, foi inevitável que as discussões seguintes se ocupassem cada vez mais com a relação entre as pessoas da Trindade (como se o problema fosse Delas). Quanto menos se experimenta a Trindade na própria existência, tanto mais ela corre o perigo de se transformar em ponto de discórdia e especulações filosóficas.
3. Com os recursos verbais disponíveis na época, não deve ter havido uma solução, desejável sob a perspectiva atual, além daquela que foi encontrada. Contudo, se aplicarmos o conceito atual de substância e pessoa, a conclusão resultante é imensa. É impossível imaginar “três pessoas” a não ser como “três deuses”, por mais que resistamos a essa interpretação. Também o conceito atual de substância, aplicado a Deus, leva a uma concepção que não tem mais uma relação de afinidade com a concepção de Deus na Bíblia.

Pode-se demonstrar que as fórmulas encontradas – mesmo quando queriam com certeza alcançar o contrário – contribuíram, em seus efeitos históricos, para a divisão de Deus. É claro que ninguém dividiu Deus; subdividiu-se a possibilidade de experimentar Deus de modo integral. Uma vez tendo colocado as três Pessoas quase como “três deuses” lado a lado, não está longe a idéia de que cada um de nós, de agora em diante, pode escolher desse panteão de deuses cristãos o seu “deus preferido”. Nessa divisão Deus corresponde uma segmentação do cristianismo que, por sua vez, é causa dos incontáveis bloqueios que caracterizam a igreja de hoje.

Uma vez que nossa concepção de Deus se tenha reduzido a uma das três revelações, reduzem-se na mesma proporção as possibilidades de experimentarmos Deus integralmente. Exatamente esta é a tragédia com que nós cristãos nos defrontamos hoje.
O resultado é que, no cristianismo global, há três grandes grupos que, a princípio considerado de modo positivo, podem ser entendidos como defensores de uma das três maneiras de Deus se revelar: os “liberais”, os “tradicionais” e os “carismáticos”.
Ao analisarmos criticamente estes três grupos, não devemos esquecer que cada um dos três termos descreve elementos centrais da mensagem cristã. A palavra “liberal” vem do latim líber (livre) e lembra o tema bíblico da libertação. Os evangélicos “tradicionais” entendem-se como sendo os transmissores do evangelho, a boa nova. O termo “carismático”, remonta o grego charis (graça). Liberdade, evangelho e graça – quem poderia questionar que, nos três casos, estamos diante do centro da mensagem bíblica?
Antes de fazermos um estudo crítico da divisão nesses três grupos e buscarmos superá-los, vamos destacar as missões legítimas que cada grupo representa:

1. Os Liberais: são os defensores da revelação da criação, não é surpreendente que dêem ênfase a temas como “preservação do meio-ambiente”, “paz global”, “justiça social” etc. Aqui se destaca a dimensão político-social da fé cristã; e temas como arte, liturgia, ciência.
2. Os Tradicionais: defensores da revelação da salvação, eles destacam a necessidade da relação pessoal com Jesus. Não é de se admirar que eles insistam na exigência da exclusividade absoluta de Jesus. Com eles o tema “evangelização” recebe destaque.
3. Os Carismáticos: são os defensores da revelação pessoal. Para eles o que importa é a experiência real com o poder do Espírito Santo. Seu destaque fica por conta das manifestações espirituais de poder e seus efeitos.

Os problemas entre os grupos sempre surgem quando um desses três enfoques – não importa qual – é isolado dos outros dois e talvez até voltado contra eles. Essa “briga”, infelizmente, já é fato corriqueiro. Uma vez que se subdividiu o único Deus em três Pessoas para colocá-las lado a lado como se fossem “três deuses”, cada grupo pôde escolher seu “deus preferido”: para os liberais é o Criador, para os tradicionais Jesus, para os carismáticos o Espírito Santo. Quanto mais fortemente as três ênfases são isoladas umas das outras, mais os três grupos se acirram numa luta sem vencedor.
Até a semana que vem.
ps.: Quero agradecer a todos que têm particpado as quartas-feiras. Nossos cultos têm sido uma bênção.
E, um agradecimento especial ao Thiago, meu filho, que fez a imagem desta semana.

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